terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Resenha #62 - Estação Perdido (China Mieville)

Estação Perdido é uma das obras mais conhecidas de China Mieville e a primeira da trilogia Bas-Lag, que ainda tem "The Scar" e "Iron Council", que ainda não foram lançadas no Brasil. Ela é um dos marcos do chamado "New Weird", subgênero da literatura fantástica que busca causar estranhamento e os mundos de China Mieville exatamente assim.

Estação Perdido, em especifico, é uma Fantasia Urbana passada na cidade fictícia de Nova Crobuzon. A estória começa com Yagahrek, um membro da raça Garuda, que contrata o cientista Isaac Grimnebulin para construir invento que possa fazê-lo voar novamente. Há Lin, a namorada Kephri de Isaac, que mantem um romance indiscreto. As coisas começam a dar errado quando um dos experimentos e Isaac foge do controle, ameaçando toda a cidade de Nova Crobuzon. Esta, em verdade, é a protagonista da estória.

Mieville conduz o leitor a uma verdadeira exploração sensorial, antropológica e social pela cidade. É sensorial porque é possível sentir cada tipo diferente de fedor que ela exala, influência do Steampunk; Antropológica, pois existe uma coexistência tensa entre as diversas raças e suas culturas perpassando as relações entre os personagens. Além dos humanos, existem Garudas [homens-pássaros], Keprhis [uma raça de insetos onde apenas as mulheres são antropomórficas e inteligentes], Vodyanois [especie de homens-sapo], entre outros. Todos eles foram tirados de diversas culturas, como o deus egípcio Keprhi, porém nada foi aproveitado de sua mitologia; e é social devida as relações sociais repressivas dos mandantes de Nova Crobuzon, que não poupa os cidadãos condenados a terrível punição de serem "Refeitos", ou seja, passar por transformações mágicas medonhas como castigo ou para se tornarem armas ciborgues do governo.

Neste aspecto, a influência política de esquerda do autor se faz presente, mas não chega a ser invasiva. Torna-se muito perceptivo apenas aqueles que procurarem ativamente por elas, portanto não se trata de uma excepcionalidade. Nenhum autor deixa suas posições na gaveta quando resolve escrever um romance. A crítica social é latente e considero muito bem vinda, para pensar nossas cidades e nossa sociedade, mesmo se tratando de um mundo de fantasia.

O destaque desta obra, contudo vai para a cidade de Nova Crobuzon, como personagem. Quem conclui a leitura de Estação Perdido, certamente ficará com a impressão de ter viajado para uma cidade, conhecido seus moradores, ruas e vivido alguns de seus dramas. É muito mais do que viagens assépticas, cheias de selfies em monumentos que se faz presencialmente hoje em dia, não é verdade?!
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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Resenha #61 - A Segunda Pátria (Miguel Sanches Neto)

[SEM SPOILERS]
"A Segunda Pátria" é um romance de História Alternativa brasileiro, subgênero que se dedica a inventar realidades alternativas, onde a história foi modificada bruscamente por um evento tecnológico e/ou político que não aconteceu. Nesse livro, o autor constrói um Brasil onde o presidente Getúlio Vargas teria se aliado a Alemanha nazista em 1939 ao invés dos Estados Unidos. Essa premissa é baseada na existência de boas relações que Vargas tinha com esses países antes do início do conflito.

O estopim é aceso quando as Leis de Nuremberg, passam a ser aplicadas na região Sul do Brasil, tornando os negros seu principal alvo. A região passa a ser um ponto de expansão do nazismo aproveitando-se da presença da colonização alemã para proliferar. A estória segue vários pontos de vista, mas é centrada em dois personagens principais: Aldopho Ventura, um engenheiro educado e totalmente imbuído na cultura alemã que vê sua liberdade restringida gradualmente por ser negro; Hertha Schieffer, uma descendente de alemães que descobre rejeitar o nazismo quando o vê na prática. Em menos espaço, os pais de Adolpho, Julius Meinster (um nazista convicto) e o próprio Getúlio Vargas, além de seu Guarda Costas pessoal, Gregório. 

A estória produz muitas reviravoltas mas não esperem um "thriller" político, de espionagem ou qualquer coisa nesse sentido, o central é o drama dos personagens principais. Adolpho e Hertha encarnam a contradição do discurso nazista. O domínio da literatura alemã de Adolpho e a boa posição de engenheiro o pintam como um alvo ameaçador e ele sofre uma transformação radical durante a narrativa. A primeira parte lembra, "O processo" de Kafka, porém, diferente de Josef K., Ventura sabe o motivo de ser perseguido mas não consegue imaginar a que ponto tudo aquilo chegaria, assim como fora com os judeus na Europa. Já Hertha, sofre o que os alemães também sofreram naquele período: denuncismo e desconfiança de todos os habitantes da cidade, onde o bom cidadão é aquele que participa denunciando e os indiferentes são culpados. Ela também se mostra hora uma mulher independente, com domínio da sua corporalidade, hora uma ninfomaníaca presa a seu desejo. De qualquer forma, ambas as opções a tornam condenável ao nazismo.

O que pode atrapalhar a leitura é a quantidade de reviravoltas, talvez demais, para um livro que não foca na ação ou na política. Contudo, é um livro de leitura fluída, principalmente se você gosta de História do Brasil que são bem feitos apesar de aparecerem tão pouco. Os capítulos curtos e as datas em cada um das cinco partes, ajudam o leitor a não se perder, pois a estória é não-linear.

"A Segunda Pátria" não poupa o leitor de cenas de tortura e morte. Trata-se de um período de guerra, "um pesadelo", como diz o autor no prefácio, transportado para a realidade brasileira que foi palco desses combates mas que consegue expor uma terrível faceta que só depende de condições históricas adequadas para se manifestar, inclusive na nossa realidade, hoje.

[COMENTE COM SPOILERS, SE PREFERIR, MAS AVISE DE ALGUMA FORMA, POR FAVOR]
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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Resenha #60 - TAZ - Zona autônoma temporária (Hakim Bey)

Olá. Esta é mais uma obra de não ficção no blog. Desta vez vamos falar de "TAZ - Zona Autônoma Temporária" de Hakim Bey, pseudônimo adotado pelo poeta, historiador anarquista, entre outras coisas, Peter Lamborn Wilson. Já resenhamos uma antologia de contos o tinha como um dos seus organizadores, Futuro Proibido. A obra compartilha do mesmo entusiasmo e temor com o início da proliferação da internet que o cyberpunks dos anos 1980, embalados pelo avanço do neo-liberalismo e a diminuição da participação do Estado nas decisões mundiais. Não há conceitualização clara do que é a TAZ, por suas palavras buscarem evitar um conceito engessador. A própria forma de exposição do conceito já é uma mensagem em si, ainda que o autor vá e volte nas linhas de raciocínio, tornando o livro, não apenas um manifesto, mas um pequeno mosaico. Como todos os livros de não-ficção do blog, é uma recomendação para quem gosta de pensar a Ficção Cientifica para além do mundo ficcional.

O autor começa abordando o conceito de "Utopias Piratas", referindo-se aos assentamentos - como ilhas escondidas no caribe ou salé/rabat no atual Marrocos - dos piratas e corsários do século XVIII que se ajudavam fora da esfera do Estado, como numa comunidade internacional e informal/criminosa. Hakim Bey cita a obra "Piratas de dados" (Ele se referia ao título original Islands in the Net/ "Ilhas na rede") de Bruce Sterling, como exemplo de zonas emergindo da ausência de força do Estado como conhecemos hoje. Ainda que as décadas seguintes não confirmassem essa visão, tanto o livro de Sterling como TAZ ajudam a visualizar essas zonas operando. No livro Utopias piratas: Mouros, Hereges e Renegados o autor aprofunda o caso de Salé/Rabat. 

O autor chama os que contestam o Estado a sair da apatia que os faz aguardar por um evento de grande porte. Só então começa a tatear as rachaduras que podem ser exploradas longe do alcance do Estado. É ai que entra a TAZ como uma tática que emerge dessas falhas através de uma psicotopologia da vida cotidiana. Nisso consiste em "desviar" das instituições como a Família e o Trabalho e buscar formas onde não há hierarquia. Entra o conceito de "nomadismo psíquico", uma rejeição ao "modelo europeu", como conceito vial para aceitar a TAZ.

O autor é sereno ao afirmar que a internet é apenas uma ferramenta para a TAZ. "Ela vai fazer uso do computador porque o computador existe, mas também usará poderes tão completamente divorciados da alienação e da simulação que lhe garantirão um certo paleolitismo psíquico, um espírito xamânico primordial que vai 'infectar' até a própria net (o verdadeiro sentido do cyberpunk, como eu o entendo)." p.28. Havia uma perspectiva, nos anos 1980, que espaços autônomos emergissem pela internet para desafiar ou esvaziar o Estado de seu poder, como no mundo ficcional de Sterling de Piratas de dados. Porém os eventos pós-11/09 nos EUA, mostraram todo o poder do Estado sobre a internet. 

Como a TAZ não é dependente da internet, o autor vai ao período colonial buscar protótipos de TAZ.As relações de poder entre as potências nas colônias, levaram muitos a fugir do mapa conhecido e buscar zonas não-cartografadas, áreas de escape, não apenas físicas mas das instituições do Estado. O autor também busca na efêmera República de Fiume como o exemplo mais recente de TAZ. Bey delimita a TAZ como uma tática do desaparecimento como forma de exercer a liberdade, e não apenas lutar para alcançá-la. 

Por fim, são mencionados alguns pequenos "gestos negativos" como exemplos que nos aproximam da TAZ, como não votar. Outros são tateados e abrangem o trabalho, a igreja, a família, o lar e da arte e termina o texto indicando caminhos internos para nos aproximarmos dessa tática.

Sobre a edição lida para a resenha: A obra é curta, mas carregada de conceitos não esmiuçados, pois não se trata de um trabalho acadêmico e sim um manifesto. Uma carta de intenções da TAZ e não uma radiografia da mesma. Conclama a ação e não a sua contemplação e para isso se agarra ao seu momento histórico, da internet florescendo e da rebeldia do movimento cyberpunk.

Versão em .PDF de TAZ - ZONA AUTÔNOMA TEMPORARIA
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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Resenha #59 - Brasyl (Ian McDonald)

"Brasyl" de Ian McDonald é, apensar de uma das linhas narrativas parecer um romance histórico, uma Ficção Científica sobre mundos paralelos e uma lamina capaz de cortar qualquer coisa.

O estória segue três personagem em tempos diferentes, começa com Marcelina Hoffman, uma produtora de TV em um canal sensacionalista num Brasil de 2006, que procura Barbosa, o goleiro da seleção brasileira da copa de 1950, para mais um de seus reality shows. Depois conhecemos Edson Jesus Oliveira de Freitas um paulistano malando que agencia modelos de dia e se traveste de noite em um Brasil cyberpunk em 2032 cercado por tecnologia de vigilância que se envolve com Fia, que faz parte de uma gangue que usa tecnologia de computadores quânticos; e por fim o padre jesuíta Luis Quinn que em 1732 veio ao Brasil em missão dissuadir um outro padre que está construindo um império rebelando-se da coroa portuguesa e da igreja na Amazônia.

O autor constrói cada mundo separadamente para depois tecer ligações sutis que vão crescendo exponencialmente até que não haja essencialmente nenhuma diferença entre eles. A física quântica é argumento para unir os mundos e as estórias, mas também mostrá-los como são tão paralelos como contraditórios. Cada personagem, assim como nós, carrega suas contradições, muitas vezes estranhas por causa da realidade em que vivem. O padre que é sacerdote e assassino. O malandro que se apaixona por uma menina e vive uma vida paralela como travesti rainha do funk e fantasias homoeróticas. A loura executiva de classe média, consumista fútil, que busca a malandragem dos capoeiristas. A quem se propõe julgá-los, resta olhar as nossas próprias contradições e ver que os personagens não são tão absurdos quanto podem parecer. Além dos personagens esses paralelismos estão na organização do livro, alternando as linhas narrativas, além do próprio mistério que descobrem durante suas aventuras.

A edição brasileira merece destaque pois a formatação diferente para cada tempo narrado facilita o leitor a não se perder no caminho. Destaque para as passagens narradas em 1732 onde as letras parecem impressas em aparelhos antigos e as páginas possuem manchas simulando envelhecimento, como se fosse um manuscrito. Geralmente evito falar da tradução pois não tive contato com o material em inglês, não sendo possível opinar até que ponto foram acertos do autor sobre o Brasil ou se teve uma mãozinha do traduzir (Fábio Fernandes) para não fazê-lo passar vergonha. Independente disso o livro entregue ao leitor brasileiro é preciso o suficiente para convencer que esse Brasil inventado poderia ser o nosso.

p.s. Achei duas artes do Devianart, inspiradas no "Brasyl". Ambas de crisfedor 


Fia e Edson na cena em que eles se conhecem

Edson fugindo da polícia
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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Resenha #58 Sociedade do cansaço (Byung-Chul Han)

[LIVRO DE NÃO-FICÇÃO] Olá. Trago novamente um livro de não-ficção e esse já é o 4º. Pretendo trazer mais, por dois motivos: Não acho que vale a pena criar outro blog só para isso e, principalmente, acho válido trazer obras de não-ficção para que autores/leitores de Ficção Científica especulem sobre a sociedade atual e não fiquem satisfeitos apenas com as especulações imaginadas nas obras antigas, por melhores que sejam. Sendo assim, o livro dessa semana é "Sociedade do cansaço" escrito pelo filósofo sul-coreano, radicado na Alemanha, Byung-Chul Han. É um livro muito curto, com 80 páginas, mas de muita relevância.

É dividido em sete curtos capítulos onde Han traça uma mudança na estrutura psíquica de nossa sociedade. Começa falando da Violência Neuronal, que é a forma de doença, que substituiu as bacteriológicas e virais do tempo da Guerra Fria. A depressão e o transtornos de atenção são exemplos dessa violência. A sociedade inteira age se punindo num excesso de positividade.    

O autor afirma que o poder não é mais exercido em forma de negatividade. Prisões, quartéis e fábricas não são os maiores instrumentos para impelir o indivíduo a produtividade e sim o próprio se cobra para isso, entra o conceito de "sociedade de desempenho". Os depressivos seriam aqueles, que não conseguem lidar com o fracasso em uma sociedade em que somos levados a crer que "tudo é possível". "a sociedade disciplinar ainda está dominada pelo 'não'. A sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados." (p.24-25.)

Han invoca Nietzsche para propor uma pedagogia do ver, de uma visão contemplativa que não cede a todos os impulsos aos quais somos expostos. Esse mundo onde somos bombardeados com estimulos, principalmente visuais, é o nosso mundo, não apenas os imaginados na Ficção Científica. É a pervasividade da tecnologia que dá o alcance necessário para que sejamos afetados dessa forma. Ora, se não podemos escapar dos estimulos de positividade, assim como Case, em Neuromancer, que não consegue ficar longe da Matrix, nos resta o caminho da depressão e encher a cara nos bares de Chiba City. 

O autor usa o conto "Bartleby, o escriturário" de Herman Melville, como metáfora o trabalho como fonte da violência neuronal e as doenças psiquicas de nosso tempo. O conto traça um quadro de depressão e opressão, vivido pelo personagem principal de forma parecida com as distopias clássicas da FC (1984 e Farenheit 451, por exemplo) ainda com a sociedade disciplinar dos muros, guardas, fábricas. Contudo, nem Melville, nem os autores da FC conseguem conversar adequadamente com o depressivo da sociedade do desempenho. Fica a questão em aberto, pois há muitas obras da FC que não li ainda.

Essa "sociedade do desempenho" nos faz exigirmos de nós mesmos uma função multitarefa que nos assemelha aos computadores. Contudo, diz o Han"a atividade que segue a estupidez da mecânica é pobre em interrupções. A máquina não pode fazer pausas. Apesar de todo o seu desempenho computacional, o computador é burro, na medida em que lhe falta a capacidade de hesitar" (p.53-54)

A falta de capacidade de hesitar, de não conseguirmos mais contemplar e focar em uma coisa, é um caminho para a obediência cega aos estimulos. Os temas antigos da Ficção Científica tratam de tecnologias que se rebelam contra a humanidade mas o grande problema é justamente que essas tecnologias não tem a capacidade de hesitar, assim como nossa capacidade de hesitar é afetada na sociedade do desempenho.

Links para download
BARTLEBY, O ESCRITURÁRIO, Herman Melville
SOCIEDADE DO CANSAÇO, Byung-chul Han
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Livros que mais gostei em 2016

Olá.
Não costumo postar muito em forma de conversa mas isso é algo que quero mudar para o ano que vem. Acho que fui muito frio nas minhas postagens desde o início do blogue. Pensando nisso acredito que estava tentando não impor minha opinião sobre os livros privilegiando a análise. Pretendo manter os textos curtos mas de alguma forma mais "simpáticos" no intuito de aumentar um pouquinho a aproximação com os visitantes do blogue pois o volume de comentários e da quantidade de visualizações, estão excelentes. Apesar do blogue ser despretensioso é voltado para um nicho e nichos são sempre exigentes. Desta forma, considerem-se abraçados. 

O motivo principal desta postagem é compartilhar uma lista com as leituras que mais gostei este ano e, ao contrário das resenhas, serei muito subjetivo. Foi muito difícil escolher e acho que se a lista fosse feita em outro dia teria um resultado diferente. 

Este ano fiz 45 resenhas, entre livros e contos, com os quais fiquei bem satisfeito em conseguir uma boa abrangência nas leituras variando bastante dentro da Ficção Científica. Quando sai da FC, para resenhar clássicos da literatura brasileira, foi por um bom motivo, impulsionado por uma das minhas obras preferidas esse ano. Também sai do escopo da ficção para buscar boas leituras de não-ficção mas que tivesse alguma relação com a Ficção Científica. Acho que fiz boas escolhas de leitura esse ano. Li clássicos e novidades, brasileiros e estrangeiros, livros de autoras e autores. Também compartilhei alguns contos próprios e pretendo melhorar como escritor. A lista não tem livros de não-ficção, não li tantos para valer uma lista.

Então, ai vai uma lista, em ordem aleatória dos 10 livros de ficção que mais gostei de ler em 2016. Seriam 5 e mesmo dobrando acabei deixando ótimos livros de fora. Cliquem no título do livro e você serão levados a respectiva resenha. Vamos a eles:
Um exercício de alteridade imersivo e profundo. Este livro foi como realizar uma viajem a um planeta desconhecido e, como toda boa viagem, nunca mais retornamos os mesmos. Já tinha lido, "Os despossuídos", outra viagem excepcional, e, por este ser o mais conhecido, me deixou com altas expectativas e foram totalmente atingidas. Um livro para levar onde for.
Última resenha deste ano. Tem clima e historias pesadas mas ao mesmo tempo cativantes. Ébrios apaixonados capazes de qualquer coisa, a decadência e miséria misturadas ao desejo e o amor. Amor romântico e amor tesão, sem distinção alguma. Baita livro!
Ficção Científica com Policial, que promove uma reflexão apurada e necessária do nosso cotidiano. Esse "estranhamento" da New Weird, deveria ser comum na Ficção Científica, nos fazer viajar para lugares estranhos e fazer pensar sobre a nossa vida normal. Esse livro me fez refletir muito e nunca mais consegui caminhar casual mente pelas ruas da minha (e de qualquer) cidade. Já estou, conhecendo outra cidade de Miveville, a Nova Crobuzon, em Estação Perdido.
Esta história alternativa imagina um rumo muito absurdo para o Brasil, onde a escravidão nunca acabou, mas pensemos uma segunda vez: Quem somos nós para chamar o Brasil imaginado pela autora de absurdo? Cheguei a criticar levemente o livro pela falta de interação entre personagens negros, mas isso faz mais sentido no Brasil de pesadelo da autora, sem heróis, sem final feliz, do que no nosso Brasil que de sonho não tem nada. [É fim de ano pessoal, fico pra baixo mesmo, mas continuem lendo que eu melhoro]
Após ler Farenheit 451, não devia me surpreender mais com a qualidade da escrita de Bradbury, mas em "Crônicas Marcianas", mais do que qualquer sensação de viajar pelo espaço, foi uma viagem na humanidade, afinal, não é quando somos estrangeiros que pensamos mais no local de onde viemos? Fico imaginando as pessoas que acham a Ficção Científica vazia de profundidade, lendo esse livro, e mordendo a língua.
Como pode um livro ser de leitura tão fluida e trazer tantas reflexões apuradas numa mesma pegada. Encontrei este livro num sebo e não pensei duas vezes. Li muito rápido e me vi obrigado a desacelerar para aproveitar melhor. Como disse na resenha, a FC foi montada em cada página, na minha frente. É como ver a linha de montagem desse nicho que tanto amamos. Fiquei empolgado novamente em saber que existem sequências, não-lançadas ainda, para o livro. Já estão automaticamente na minha lista de desejos. Já disse que gosto muito de romance epistolar? Vou acabar falando isso de novo aqui.
Já faz anos que queria ler este livro pelo plot maravilhoso. Restava ver como seria abordado. A ironia afiadíssima do PKD me deixou muito satisfeito. A New Weird, do China Mieville, deve ter bebido nesse estilo pela convivência relativamente normal entre raças tão diferentes. A loucura e a normalidade dos personagens me fizeram viajar longe.
Tomei conhecimento do autor por meio dos desafios literários do Entre Contos, dos quais participo. O livro me surpreendeu pois foi uma experiência muito melhor do que contos soltos do autor, que já são ótimos. A proposta de quebra da quarta parede me conquistou logo de cara. O livro é cheio de armadilhas nas quais cai com gosto. Terminei a leitura querendo ser que nem o Rubem quando crescer.
A Ficção Científica mais brasileira que tive a oportunidade de ler. Não pela putaria e palavrões que respingam na cara do leitor, (também isso, né?!) mas pela viagem cantada e crua desse cyberpunk brasileiro que, até onde sei, é o primeiro e até agora o melhor cyberpunk nacional que já li. Por isso, indiquei como primeiro na lista dos livros mais importantes da FC brasileira.
As características desse livro fecharam perfeitamente comigo. É um romance epistolar, uma baita estória, muito bem escrito e ambientando em Porto Alegre, cidade que amo odiar. Acima de tudo por salvar dos confins empoeirados dos sebos personagens e estórias da Literatura Brasileira, ignorados mal-tratados (para não dizer, mal lidos), pela grande maioria de leitores brasileiros. É aquele tipo de livro que já deveria existir a muito tempo. Quem ainda não notou, eu estou resenhando aqui os clássicos da literatura que foram reinventados neste livro. Já disse que é uma baita estória e muito bem escrito?

E você, caro leitor, já leu algum dessa lista?
Consegue listar os 10 que mais gostou, lidos em 2016?
ou acha isso tudo uma tremenda bobagem e eu deveria capinar uma roça?
Comentem!
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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Resenha #57 - Noite na Taverna (Alvares de Azevedo)

Este é a segunda, de uma série de resenhas, que estou fazendo de obras clássicas da literatura brasileira que aparecem na série Brasiliana Steampunk, com o livro "Lição de anatomia do temível Dr. Louison" e alguns contos. A série coloca personagens da literatura brasileira em um mundo steampunk. De "Noite na Taverna", foi emprestado ao mundo criado por Enéias Tavares, Solfieri.

"Noite na Taverna" foi publicado postumamente em 1853, dois anos após a morte precoce de Alvares de Azevedo. São estórias cheias de tabus e violência ao mesmo tempo embaladas por amores fulminantes típicos do romantismo.

São cinco estórias contadas pelos homens que as viveram, mais um trecho de abertura e um de fechamento que a tornam uma única grande estória. Tudo passa em uma taverna escondida em um lugar indeterminado onde os personagens contam suas estórias. Após uma breve apresentação onde todos falam, Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johannn, começam a contar histórias marcantes de suas vidas.  Vários tabus são quebrados ao longo do livro, como a necrofilia, antropofagia e incesto. Tudo regado a vinho e violência que os unem na taverna. Os nomes de diversos lugares do mundo e os locais onde narram suas histórias tornam a taverna não localizável, podendo ser qualquer lugar no mundo. 

O livro é de leitura bem curta. A edição que li, tem 96 páginas e tem uma linguagem carregada do rebuscamento do período. Como acontece com outros clássicos, já estão disponíveis em domínio público e são fáceis de encontrar em qualquer sebo com várias opções de edição. Isso favorece pois é possível encontrar um com letras maiores ou em melhor estado. 

Solfieri ganha o sobrenome de seu criador naquele mundo Steampunk. Um ocultista imortal que carrega as dores do tempo que vive a mais que os mortais, a dor dos românticos taberneiros da obra de onde saiu. Ainda que tenha participação tímida no primeiro livro da série, Solfieri aparece em mais dois contos onde é o protagonista. Espero lê-los para resenhar no blog.

O outro clássico resenhado no canal, nesta série, foi: O Alienista.

Baixe o livro, sem culpa, pois é de domínio público. 
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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Resenha #56 Vingador do Futuro (Philip K. Dick)

Vamos para outra coletânea de contos de Philip K. Dick, que a exemplo de "Minority Report" também foi lançada na carona de outra adaptação de um conto ao cinema. Desta vez é "Vingador do Futuro".
Aqui foi lançada como uma coletânea avulsa de contos mas na verdade trata-se da "The Little Black Box - volume 5 of the collected stories of Philip K. Dick", ou seja, é o 5º volume de uma grande coleção lançado nos EUA. Vamos analisar os contos em separado:

Vingado do Futuro (ou Podemos recordar para você por um preço razoável - We Can Remember It for You Wholesale) É o conto que dá título a coletânea e a inicia. Serviu de inspiração para o filme Vingador do Futuro, que começa apresentando Douglas Quail, um "assalariado de merda" que não tem o tamanho de Schwarzenegger mas deseja ir a Marte. Então, recorre a Rekordações para receber um implante de memória de como teria sido a viagem. Após complicações no procedimento a estória segue um rumo diferente do filme. O conto aborda o que restaria de nossa identidade se pudéssemos manipular as nossas lembranças e experiências de vida.*

A mente alienígena (The alien mind) - Conto bastante curto. Bedford é um piloto espacial de uma nava comercial prestes a atracar no planeta Meknos III. O humor cruel toma conta da narrativa do meio para o fim. Muito bom!

Revanche (Return Match) Joseph Timbane, policial de Los Angeles apreende um fliperama em um cassino ilegal de alienígenas de Io. No laboratório, a máquina mostra um sistema que a impede de perder, nem que tenha de matar o jogar para isso. Philip K. Dick já havia abordado jogos como armas de guerra não-convencional em "Jogos de Guerra" (ver resenha de Minority Report

Não julgue pela capa (Not by its cover) Sr. Handy é um rabugento dono de uma gráfica de livros e fica intrigado com o mistério dos livros que parecem ter vida própria, manifestando-se alterando conscientemente os conteúdos originais dos livros impressos. Isso sempre ocorre quando estão envolvidos na pele de Wub, um animal de Marte. As modificações se dão sempre para defender a vida após a morte. Um significado mais profundo está no texto que veio da terra envolvido na pele de um animal marciano, nos mostrando como uma cultura não pode permanecer pura e nós estamos sempre envolvendo os textos em "peles de Wub" mudando seu significado ao longo do tempo e do espaço. 

A formiga elétrica (The Electric Ant) Gerson Poole, após um acidente, descobre que é uma formiga elétrica, nome pejorativo para androide, porém ele acreditava ser um humano genuíno. É interessante notar que é o caminho inverso do Homem bicentenário de Asimov, um robô consciente de sua condição que luta alçar a condição humana. Já Gerson Poole acreditava ser humano e tem de lidar com sua nova realidade não-humana. Nesse conto, Dick adiantou muitas coisas que seriam tema de "Androides sonham com ovelhas elétricas?". Limites da humanidade e da realidade.*

A pequena caixa preta (The little Black BoxO casal Joan Hiashi e Jay Meritan conhecem uma nova religião, o Mercecismo, que gira entorno da necessidade de empatia como principal valor. Os governos, tanto capitalistas como os comunistas começam a perseguir os adeptos e caçam seu profeta, Wilbur Mercer**. Neste conto temos a visão de religião do autor como um valor perigoso para o Estado. O aparelho que os merceritas usam para contactar seu profeta em rede é o objeto que dá nome ao conto. Este conto se conecta com um romance clássico do autor: "Androides sonham com ovelhas elétricas?". 

* = Estes contos já foram lidos, também, em outra coletânea (Minority Report) resenhada no blog. Então a analise é repetida.
** = Foi daqui que tive a ideia do nome do blog.
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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Resenha #55 Um passeio no jardim da vingança (Daniel Nonohay)

[SEM SPOILERS] "Um passeio no jardim da vingança", de Daniel Nonohay é um romance policial brasileiro com elementos de Ficção Científica Cyberpunk. Acima de tudo é um romance policial que usa elementos de FC, pois usa a especulação sobre o futuro como um elemento secundário.

A estória conta sobre Ramiro, um advogado envelhecido tanto pelo tempo quanto pelas drogas e uma vida sem propósito. Após um atentado a bomba, Ramiro viu-se perseguido por uma rede de poder e influência envolvendo os próprios sócios de sua firma de advocacia. A trama se passa em Porto Alegre, num futuro por volta de 2030-40, onde existem zonas vigiadas onde os ricos da cidade moram.

Os personagens são bem construídos sob suas fraquezas e elas são bem exploradas entre os próprios personagens, fazendo a trama desenrolar-se sem o típico herói que resolve tudo e sai sapateando na cara dos vilões. A atmosfera de um futuro próximo, construída pela figura de Ramiro, que possuí um implante de memória, capaz de acessar a internet. Infelizmente os elementos de FC foram deixados de lado na segunda metade do livro, retornando apenas no desfecho, ainda que continue um bom romance policial. O livro se divide em 3 partes, alternando a narrativa em vários personagens, porém apenas em Ramiro a narração é em primeira pessoa, deixando os outros personagens com narrador onisciente.

O romance é despretensioso, no que tange a Ficção Científica, trazendo poucos elementos de Cyberpunk. Acredito que esses elementos, ainda que pouco presentes, aparecem de forma mais séria e coerente que outras obras de FC no Brasil que se vendem como cyberpunks e fazem apenas sátiras retrofuturistas, que apenas desacreditam o cyberpunk como uma forma de especular sobre nosso futuro e conversar com o presente.
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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Resenha #54 - A Metamorfose/O Veredicto (Franz Kafka)

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

A primeira frase de "A Metamorfose" de Franz Kafka é uma das, se não a mais, geniais da literatura mundial. Em primeiro lugar, é um excelente sinopse jogando o leitor diretamente na trama e, segundo, adianta o estilo direto e seco do autor. Esta secura é uma das formas de mostrar seu amargor em meio a um turbilhão de sentimentos pessoais do autor que transbordam em toda sua obra.

A metamorfose não tem explicação. A desgraça cai sobre Gregor Samsa da noite para o dia mas a máquina não pode parar. Gregor continua tensionado a ir trabalhar, inclusive deseja voltar, mesmo odiando o emprego, enquanto isso todos continuam com suas preocupações. Gregor que antes sustentava a família, agora era literalmente um inválido, porém é indigno até de pena. Nesta forma, contudo, parece livre do emprego e das obrigações o oprimiam e seu aprisionamento no quarto se dá mais pelo sustento que não pode mais prover do que pela sua condição de inseto monstruoso. 

O que fica mais evidente em "A Metamorfose" é sua relação de respeito e ódio de Gregor com o pai. Essa situação é confidenciada, sem o manto da ficção, em "Carta ao pai". Entre essas duas obras, Kafka escreveu "O Veredicto" um conto escrito para sua noiva contando a estória de Bergeman um comerciante que troca cartas com um amigo na Rússia e, por mentir em suas correspondências sobre a sua situação, não sabe se o convida para seu casamento. O conto é um tanto confuso como estória e só faz sentido uma vez entendidos os dilemas de Kafka, que ainda não era tão habilidoso em cobrir seus sentimento, como viria a ser em "A Metamorfose". Ainda sim é um bom conto.

A edição lida para a resenha é a da L&PM pocket contem a novela "A Metamorfose" e o conto "O veredicto". Contém, também, textos analíticos no início e no fim do livro sobre a obra do autor e notas de rodapé que auxiliam leitores pouco iniciantes. Elas apontam as ironias e características literárias de Kafka por todo o texto. Apesar de forçar uma interpretação da obra considero como boas muletas para o leitor.
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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Resenha #53 - Minority Report (Philip K. Dick)

"Minority Report - A nova lei", é uma coletânea de contos do Philip K. Dick, editada pela Record em 2002. Aproveitando a onda do lançamento nos cinemas e o sucesso, a capa foi copiada tão igual quanto possível ao cartaz do filme. Como o roteiro foi baseado num conto de 60 páginas, a Record decidiu incluir mais nove contos e lançar uma coletânea. Debrucemo-nos em cada conto, para depois falar dos aspectos gerais da edição.

Minority Report já havia sido publicado antes com título traduzido (Relatório de minorias) contudo, em virtude do título do filme vir sem tradução, foi mantido o título original. Conta a estória de John Anderton comissário da polícia pré-crime, uma instituição policial que utiliza "precogs", mutantes capazes de prever o futuro. Tal qual o filme, os policiais prendem os assassinos antes de cometerem um crime e a trama começa quando o nome de Anderton é apontado como um assassino. A estória envolve a existência da própria polícia, contudo, o faz por caminhos diferentes do filme. O conto tem personagens menos "maquiados" que no filme. Anderton é gordo e careca (nada parecido com Tom Cruise, em 2002) e os precogs tem aspecto medonho. A crueza do conto está nos personagens e não na ambientação (enquanto o filme transferiu isso para a ambientação e contratou atores bonitos). É um ótimo conto. (p.11-61)

Em Jogos de Guerra, (War Game) funcionários de uma importadora de brinquedos avaliam produtos vindo de Ganimedes para o mercado da Terra. São eles: Um jogo de realidade virtual onde soldados invadem uma cidadela, uma fantasia de cowboy e uma variante do Monopoly chamada Syndrome. O propósito dos brinquedos é obscuro aos personagens e ao leitor também, não percebem a ideologia guerreira de seus importadores mesmo nos brinquedos vetados. Contudo, a ideologia mais sutil e eficiente está justamente no brinquedo aprovado. (p.63-85)

O que dizem os mortos, (Wath the Dead Men Say) se passa em um futuro onde os mortos podem conversar com os vivos, se mantidos sob certas condições de temperatura. John Barefoot é o RP do recém falecido megaempresário Louis Sarapis, que pretende continuar influenciando sua empresa e aliados políticos enquanto estiver semivivo. Contudo os agentes de conservação não conseguem estabelecer contato até que sua voz começa a aparecer em todos os aparelhos de rádio, telefone e TV. O plot foi aproveitado posteriormente em Ubik, onde o personagem Herbert Schoenheit reaparece. (p.87-160)

Ah, ser um Bolho! (Oh, to be a Blobel!) mostra a vida de George Munster, veterano de uma guerra contra uma raça alienígena, os bolhos de titã. Á narrativa é cheia de ironias utilizando o estranhamento entre a forma humana e a forma de vida unicelular dos bolhos para mostrar nossa incapacidade de conhecermos uns aos outros bem como expor os valores familiares burgueses do relacionamento. Há uma dimensão política do conto, sendo uma crítica aos rumos dos EUA que "assimilam" características dos países com que entram em guerra, como a Alemanha Nazista e, depois, o Vietnã (uma crítica a chamada, "Guerra de corações e mentes"). Uma forma muito criativa de explorar a polissemia da Ficção Científica. 
Formas de vida parecidas com os bolhos aparecem em Clãs da Lua Alfa, porém sem sofrer a mesma repulsa dos personagens. (p.161-185)

Podemos recordar para você por um preço razoável (We Can Remember It for You Wholesale) O conto serviu de inspiração para o filme Vingador do Futuro, que começa apresentando Douglas Quail, um "assalariado de merda" que não tem o tamanho de Schwarzenegger mas deseja ir a Marte. Então, recorre a Rekordações/Rekord para receber um implante de memória de como teria sido a viagem. Após complicações no procedimento a estória segue um rumo muito diferente do filme. O conto aborda o que restaria de nossa identidade se pudéssemos manipular as nossas lembranças e experiências de vida. (p.187-216)

A fé de nossos pais (Faith of Our Fathers) Chien é um funcionário do Partido Comunista de Hanói em uma realidade alternativa em que os comunismo se espalhou pelo mundo, inclusive nos Estados Unidos. Seus problemas começam quando Chien usa um alucinógeno em frente a televisão, durante o discurso obrigatório do Grande Líder, e passa a vê-lo em uma forma não-humana. Não demora muito, Chien se envolve com opositores do partido. A estória vai além do anticomunismo clichê e tem as quebras de barreiras da realidade que o autor questionou em seus escritos. Este conto, assim como o seguinte, fizeram parte da célebre antologia Visões Perigosas, contudo apenas o seguinte foi referenciado na edição. (p.217-260)

A história que acaba com todas as histórias (The Story to End All Stories) É o menor conto de Dick. É carregado do temor da guerra nuclear e também das investigações teológicas do autor a respeito de Deus que tomariam conta de suas ultimas produções. Nesse sentido, conversa bastante com o conto anterior "A fé de nossos pais". Não subestimem pelo tamanho, é um conto que precisa acontecer, na maior parte do tempo na cabeça do leitor, com são os minicontos. (p.261)

A formiga elétrica (The Electric Ant) Gerson Poole, após um acidente, descobre que é uma formiga elétrica, nome pejorativo para androide, porém ele acreditava ser um humano genuíno. É interessante notar que é o caminho inverso do Homem bicentenário de Asimov, um robô consciente de sua condição que luta alçar a condição humana. Já Gerson Poole acreditava ser humano e tem de lidar com sua nova realidade não-humana. Nesse conto, Dick adiantou muitas coisas que seriam tema de "Androides sonham com ovelhas elétricas?". Limites da humanidade e da realidade. (p.263-286)

A segunda variedade (The second variety) Se passa em um mundo devastado pela guerra entre EUA e URSS. As tropas soviéticas, após tomarem os Estados Unidos, são praticamente dizimados por robôs chamados "garras", inicialmente controladas pelos estadunidenses. A estória começa quando um soldado russo vai até uma base americana entregar uma mensagem e Hendricks vai até a base russa investigar. 
As "garras" que parecem drones, logo, tomam formas mais avançadas, explorando e destruindo a humanidade nos soldados. Tudo isso narrado de forma crua, mostrando toda a miséria da guerra, sem nenhum traço de bom humor - como é comum em outros do autor. (p.287-348)

O impostor (Impostor) é a primeira estória do autor sobre o tema "Eu sou humano?". Nela temos Spence Olham, que trabalha num Projeto (indeterminado, relacionado a corrida armamentista) e passa a ser perseguido pelo seu amigo policial que o acusa de ser um robô espião de uma raça alienígena que teria feito uma cópia perfeita da memória do verdadeiro Spence Olham. O que chama a atenção não é apenas a dúvida "sou humano ou não" mas a capacidade de transferir memórias para um robô e este adquirir todas as características. É o transhumanismo abordado décadas antes (1953) do movimento Cyberpunk (anos 1980)! (p.348-367) 

Sobre a edição lida para a resenha: Particularmente não gosto de capas de filme em livros pois as diferenças são tantas que fica algo muito falso. Com exceção de Blade Runner, a maioria das adaptações de suas obras apenas chupam os plots e ignoram as ideias mais profundas do autor que não foram feitas apenas para divertir. Infelizmente a edição foi bastante apressada, pois tem alguns erros de tradução e digitação, porém os contos são muito bons. Vale mais para completar a coleção de contos traduzidos do autor no Brasil do que como porta de entrada a obra de Philip K. Dick. Se você encontrar barato em algum sebo, vale a pena. Se você tem grana para uma edição nova melhor pegar "Realidades Adaptadas" da Aleph mas se você é muito fã do PKD, como eu, fique com os dois.
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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Resenha #52 - A procura de vida inteligente (Victor Allenspach)

"A procura de vida inteligente" é um livro de contos brasileiro lançado de forma independente por Victor Allenspach. Composto de oito contos de ficção científica, a obra gira entorno de Boris, um androide muito similar aos humanos inclusive na capacidade de sentir. Os contos são independentes e podem ser lidos separadamente contudo ganham um sentido que os amarra praticamente como um romance. Um efeito que engrandece o livro para além de uma coleção de contos. Antes de falar mais do livro como um todo, vamos aos contos em separado:

Mensagem para o Universo O conto começa com os últimos momentos de Bóris. É daqueles que se relembra durante a leitura dos contos seguintes, principalmente do último. (p.6-8)

Mula desobediente. O conto começa com reflexões e construções de frases no estilo de Douglas Adams mas depois a estória começa de fato e vai tornando-se mais interessante com a exploração espacial em si. Conhecemos Ekta um explorador espacial por profissão que recebe uma proposta de um antigo amigo para ajudá-lo num empreendimento numa galáxia distante que pode torna-lo reconhecido. A estória tem uma boa guinada e um final excelente. (p.9-42)

Cemitério de plástico começa com um homem que se descobre o único sobrevivente de um desastre com uma grande embarcação espacial. Perdido em meio ao clima desértico e inóspito o homem encontra uma misteriosa menina que deixa tudo mais misterioso  sinistro. Conto também tem um final muito bom. (p.43-72)

A deriva Sasha é a capitã de uma enorme nave da Federação quando encontram um misterioso androide chamado Boris. Em meio a uma crise de energia da nave Sasha se vê obrigada a ficar longe de seu amor Thoru uma IA que depende do computador da nave para funcionar. Ela conta com a ajuda de Boris, um androide encontrado no caminho. O final desse também é excelente. (p.72-102)

Horizonte acentuado Nesta estória conhecemos Marcos, um técnico em tecnologia gravitacional que é contratado por um misterioso ricaço, de nome Giulio, que mora em um corpo espacial no canto reservado da galáxia. O androide Bóris, seu serviçal, é a úncia companhia de Giulio. (p.103-142)

Reciclado O conto acompanha Dona Lourdes, uma viúva de um explorador espacial que se muda para um planeta distante com seus dois filhos e trabalha reciclando robôs. Não por  acaso, um deles é Bóris. (p.143-164)

Diagnostico do chef Duongo é um planeta curioso com seres de cascos tão gigantescos que os humanos construíram hotéis. Estevam e Rúbio estão em visita a este paraíso tropical. (p.165-185)

Boris Richard Márquez faz uma incrível descoberta de um universo paralelo que está com os dias contados. (p.186-196)

Os contos juntos parecem formar uma única estória, cada uma justificando como Bóris foi parar no cenário do conto anterior. Sendo assim, além de lermos querendo saber o que vai acontecer com o protagonista do conto, ficamos curiosos em saber como Bóris foi parar no lá onde estava no conto anterior. Bóris consegue ser coadjuvante em vários contos e ser protagonista do livro ao mesmo tempo. É um feito sensacional para a obra.
A capa é simples e sincera. Não promete aventuras eletrizantes que o livro não tem pois ele se dá tempo para muitas reflexões sobre a vida, o que pode deixar a leitura lenta. As páginas são de material reciclado e isso está ligado a Bóris que sempre corre risco de ser reciclado por ser diferente. Vale a pena para quem gosta de Ficção Científica no estilo clássico e para quem não conhece também poder um dia a gostar.

A edição lida faz parte do booktour que o autor promove com seu livro, distribuindo exemplares itinerantes, ou seja, o leitor pega o livro e passa adiante. Outra forma do livro ser, reciclado.
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